12 março 2014

Uma Quaresma de Escondimento

Retiro de Carnaval, Quaresma, Páscoa. Todo ano, a mesma coisa. Prometo jejuar mais, mas aqueles
benditos aniversários têm que cair sempre na Quaresma? Decido-me ser mais penitente, mas com o stress em que vivo, quem consegue? Faço o propósito de dar mais esmolas e fazer “um raspa” na casa em favor dos necessitados, mas quando me lembro da trabalheira…

A gente tem mania de fazer promessa grande, não é verdade? Talvez porque a gente se ache grande o suficiente para cumprí-las, talvez porque a gente pense que quanto mais grandioso o ato, mais a gente agrada o Senhor.

Santa Teresinha gostava de sentir-se pequena, pequena. Ela entendia que era assim que se agrada a Deus. Muitos outros santos – creio que todos, ou não seriam santos – entenderam e viveram o mesmo que ela: o que vale para Deus não é a grandiosidade do ato, mas a intenção com a qual o ato é feito.

Na época em que viajar de avião tinha mais glamour, havia, no toalete, um aviso: “Por cortesia para com o próximo passageiro, enxugue a pia após o uso. Obrigado.” Nem sei porque agradeciam, pois em muitos anos não me lembro de ter encontrado a pia enxuta uma só vez. Quem, senão alguém que entendesse o valor de um ato tão pequeno e escondido, enxugaria a pia por amor ao próximo … passageiro, por amor a Deus?

Há pouco tempo, porém, tive uma surpresa ao viajar em um destes aviões antigos. Como estava sentada perto do toalete, pude entrar logo que saiu um senhor meio forte e que, com a mais absoluta certeza, havia provado bebidas também fortes naquele vôo internacional, onde tais bebidas são fartas.Qual não foi minha surpresa quando, ao entrar, verifiquei que a pia havia sido enxuta! Pedi perdão a Deus por julgar mal o cavalheiro que fizera aquele ato tão escondido de amor a mim, embora nem me conhecesse e, seguindo o seu exemplo, também eu enxuguei a pia para servir o próximo … passageiro.
Mal me sentei no meu lugar, a duas poltronas do lavatório, e novamente vi o senhor forte de pé, como que esperando alguma coisa, e de olho no toalete. De repente, precipitou-se porta adentro, mas… deixou-a aberta. ‘Meu Deus!’, pensei, fazendo novo julgamento.

Logo, a belíssima aeromoça italiana, com aquele perfil clássico que só elas têm, aproximou-se, certamente tão desconfiada como eu, e o pobre homem, a enxugar a pia e falar mais alto do que o necessário, começou a comentar com ela como era possível que as pessoas não enxugassem a pia depois de usá-la! ‘Que grossura! Que falta de educação! Não existe mais cavalheirismo hoje em dia.’

Certamente acostumada com tal expediente para chamar sua atenção, a comissária esgueirou-se educadamente para a primeira classe e sumiu, enquanto o senhor forte, à porta do toalete, lhe lançava um olhar nada cavalheiro pelas costas.

Não pude evitar pensar como Jesus usaria aquela situação. Imaginei que ele modificaria um pouco a frase clássica: “Por cortesia para com o próximo, ainda de porta fechada para que ninguém lhe veja, enxugue a pia após usá-la e confira em Mt 6, 1. Sinto muito, mas é melhor para você que eu não agradeça.”

Quem sabe, nesta Quaresma o Senhor não deseja que queiramos ser pequenos, que gostemos de ser pequenos e de substituir todo plano maior do que nós por fazer, sistematicamente, todas as pequenas coisas com um zelo e amor especial para a maior glória Dele, sem planos, aproveitando toda pequena oportunidade?

Nossas camas, então, terão lençóis sem nenhuma dobra. Os pratos, na mesa, serão bem ornamentados como nunca. Toda pasta de dentes será tampada. Nenhum aniversário será esquecido. Todas as portas serão abertas por cortesia amorosa e os outros sempre entrarão primeiro. Haverá os mais belos sorrisos para os mais ferrenhos inimigos, os mais delicados elogios para aquela colega ‘sem gracinha’ do trabalho, a pergunta mais interessada para o inoportuno limpador de para-brisas, o agradecimento mais efusivo para o trocador do ônibus, o até-logo mais grato para o motorista.

As senhoras idosas passarão à frente da fila, aquela que além de dois filhos pequenos traz uma sacola encontrará ajuda e as murmurações silenciarão por amor. As louças não ficarão sobre a mesa, a comida sem graça será a melhor do mundo, todo supérfluo será doado e – mais importante do que tudo! – com essas pequenas mortes, estaremos participando da morte de Cristo e ressuscitando com ele.

Lá pelo vigésimo dia, estaremos prontos para o despojamento, para o jejum, para maiores penitências. Teremos feito coisas pequenas, mas isso não importa. Importa que teremos escolhido ser pequenos e teremos conseguido isso pela única via segura: a via do amor.
“Por amor ao próximo ….”

Feliz Quaresma!
Maria Emmir

Fonte: http://www.comshalom.org/uma-quaresma-de-escondimento/
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